Férias em Porto Amboim

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Escrito por Hildérico Coutinho

O fim-de-semana mais pagão do ano origina umas mini férias de Domingo Gordo ao dia de Carnaval.

Mascaradas e cabrioladas ao som estridente de sambas brasileiros nunca foi muito a nossa onda.

Resolvemos assim fugir um pouco mais para sul do que o percurso habitual dos luandenses mais abastados que se quedam normalmente pelas praias de Sangano e Cabo Ledo.

Aterramos em Porto Amboim, em casa de um amigo que infelizmente se encontrava na capital, mas que tinha deixado tudo preparado para nos receber com aquele carinho especial das gentes das províncias. Muito grato amigo Albertino e Teté pela simpatia e disponibilidade total em ajudar.

A cidade, pequenina e a precisar de que lhe lavem a cara, tem no entanto uma organização e ocupação de espaços notável voltada para onde reside a sua maior beleza, a beira litoral.

Estes dias neste local fizeram-nos recuar uns bons 40 anos aos Agostos das nossas infâncias nas praias nortenhas de Portugal: Mira, Furadouro, Torreira, S. Pedro de Moel. Todas terreolas com meia dúzia de espaços comerciais, uma livraria, um mini-mercado, uma peixaria e um ou dois cafés onde se podia jogar uns matrecos, gastar uma moeda na máquina das bolas com brindes e furar umas rifas de chocolates Regina.

Ia-se para a praia com uma sacada de pães que devorávamos cheios de vontade tal a fome que o mar abre!

Tínhamos direito a escolher uma e apenas uma das delícias que os vendedores ambulantes apregoavam pela praia. A bolacha americana e as bolas de Berlim eram as nossas preferidas.

Não tendo Porto Amboim os espaços e tradições referidas, pois fruto do tempo tem uma data de agências bancárias e nenhum café digno desse nome para tomar o pequeno-almoço, tem contudo muitas similitudes e algumas óbvias vantagens:

  • A temperatura amena que faz o sol acariciar a nossa pele até quase ao final da manhã, quando em Luanda já estaríamos estorricados e prontos para virar para o outro lado para acabar de assar…
  • Uma brisa constante a amenizar o calor e suave o bastante para não incomodar.
  • A baía lindíssima de ondas calmas, bem diferentes das que se enfrentam na costa ocidental de Portugal, com uma areia finíssima logo após a rebentação que permite um agradável baloiçar das ondas.
  • Baixíssima taxa de ocupação permite um atendimento cuidado e atencioso nos restaurantes junto à praia e a quem deveremos obrigatoriamente recorrer.

Existem pelo menos dois espaços junto ao mar que merecem as nossas visitas.

O primeiro, O Farol, por indicação do nosso amigo e onde fomos recebidos com um bom Caldo de Peixe. Ótimo para começo de hostilidades. Detetado o Calulu de Peixe, verificamos que só por encomenda. Ficou assim marcado para o dia seguinte. Ainda bem que o fizemos, pois estava muito bom e acompanhado por um funje de bombó bem batido.

O segundo, Mares de Amboim, foi a sua frequência animada a nos chamar durante uma das nossas deambulações noturnas a pé (oh Luanda quando nos permitirás estes pequenos prazeres?), onde a temperatura perfeita, que nos lembrou as melhores noites de Verão em Portugal e nos impele ao passeio. Algo que aqui podemos fazer sem o menor receio e onde acabamos por apanhar banhos de gente simpática e divertida organizada em grupos carnavalescos dos diversos bairros da cidade que percorrem a cidade individualmente e de uma forma aparentemente aleatória parando a dançar à frente de quem quiser pagar uns míseros 500 Akz.

Voltámos ao Mares no dia seguinte para experimentar uns petiscos, uma boa maneira de avaliar a cozinha de um restaurante sem dar cabo da carteira. A qualidade do choco frito, superior ao do primeiro espaço fez-nos voltar no dia seguinte e encomendar uma massada de peixe para o almoço. Estava boa a massada, mas que poderia estar melhor se tivesse maior diversidade de peixe e sobre tudo se tivesse uma ervinha que faz milagres nestas coisas, os coentros!

Para terminar não posso deixar de referenciar uma pequena gentileza destes espaços que frequentamos e que por certo se estende aos restantes, a de nos disponibilizarem cadeiras de praia gratuitamente e com colchões o que nos levou a pensar se haverá mesmo necessidade de sair de Luanda para encontrar serviços civilizados e inteligentes…

Voltaremos!

Hildérico Coutinho
Escanção/Sommelier, Club Nómada

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