Degustações na Chicala

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Depois de me ter ouvido, por bem mais de uma vez, tecer elogios à qualidade da assadura dos peixes da Blandini, foi o Claudio a propor uma operação concertada de ataque à Barraca da Blandini, onde além dos vinhos também os copos tiveram de ir a reboque, o que, diga-se de passagem, não beliscou nem por um momento o semblante da nossa simpática anfitriã.

A Barraca da Blandini fica no mais improvável dos destinos no que à excelência diz respeito, a Chicala I, uma zona esburacada e poeirenta, que ainda assim é bem melhor que a lama negra bem desagradável do tempo das chuvas. Fica logo a seguir ao Instituto de Planeamento e Gestão Urbana de Luanda, local mais irónico para este instituto era difícil de arranjar…

Chegámos um pouco antes da hora combinada, isto é, eu e a minha mulher, os outros foram chegando ao longo dos 45 minutos seguintes. Trazíamos as nossas garrafitas e os necessários copos para degustar os vinhos que levávamos e encontrámos uma mesa imensa, muito maior que o pretendido num ambiente bem romântico, com toalha vermelha, copos com guardanapo e uma penumbra deliciosa, que nada teria a ver com o facto de não haver eletricidade… Questão resolvida com a ajuda das lâmpadas de LEDS dos nossos amigos chineses.

Após a chegada de mais dois amigos, abrimos as hostilidades e começamos a degustar um rosé da Herdade do Rocim, o Mariana 2014, um vinho muito idêntico à primeira versão de 2013, ou seja, pouca extração ficando por isso com uma cor pálida na linha dos rosés da Provence, mas com uma doçura que não é assim tão típica dos rosés daquela região. Já com a presença dos restantes comensais seguiu-se o Caiado Branco 2014, um vinho elaborado com castas tradicionais alentejanas com destaque para a Antão Vaz e que se mostrou muito equilibrado entre a frescura e o corpo tradicional desta região graças a um frutado muito agradável.

Seguiu-se o Q do B 2009 da casta Bical, um branco da Quinta do Encontro da Bairrada com uma oxidação acentuada e onde o mel predominava demais retirando frescura ao vinho, não deixando no entanto de ser agradável. Estes dois vinhos acompanharam um choco grelhado que pedimos para ser devidamente trinchado e temperado, o que foi feito de uma forma irrepreensível. Tenho receio muitas vezes de pedir este prato por sistematicamente assassinarem o bicho queimando-o demais, secando-o e além de ficar elástico fica a saber a carvão. Nada disso aconteceu aqui, mostrando um molusco delicioso no sabor e textura.

Para o segundo prato e não vale a pena pensar em pedir mais, pedi que em vez de um peixe grelhado fossem servidos três diferentes com a condição de um deles ser carapau. Porquê? Porque este foi o peixe que mexeu comigo quando aqui cheguei como dizem os nossos amigos brasileiros. Mexeu comigo porque, ao contrário do que eu costumava comer em Portugal, o carapau aqui tem o dobro do tamanho e isso faz toda a diferença, a textura é outra, o sabor atenuado quase poderíamos dizer acetinado e a suculência é fabulosa, mas há um cuidado a ter e é fundamental, não cozinhar demais o peixe. Era isto que eu queria mostrar ao Cláudio, mas infelizmente o tamanho do bicho não era conforme as minhas expectativas e bolas … fica para a próxima. Para compensar, o cachucho e o calafate, de tamanho considerável, estavam grelhados na perfeição e de sabor correspondentemente brilhante. O feijão em óleo de palma estava, como de costume, delicioso e com isso eu de pouco mais preciso, apesar de os costumeiros acompanhantes também estarem disponíveis.

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Para acompanhar estes peixões foram servidos aqueles que foram os vinhos da noite, que me desculpem os outros companheiros de viagem mas foram os meus, o primeiro o Quinta da Pedra 2010 um Alvarinho que é já considerado como um dos melhores em Portugal e que se apresentou em bom nível apesar de eu preferir a colheita de 2011 onde a fruta está mais presente. O outro simplesmente arrasou, um Riesling de 2004 que eu tenho acompanhado há seguramente 9 anos e tem evoluído deliciosamente. O vinho tem um nome pomposo Dr. Von Bassermann-Jordan Forster Jesuitengarten da região alemã de Pfalz.

Depois de todo este despautério e para acalmar algumas gargantas mais sequiosas foi aberto o último branco da noite que parece, ninguém tinha muita vontade de abrir, um Monte Velho de 2013 que foi deixado quase intacto e isso diz tudo…

Hildérico Coutinho

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