Uma prova cega na República

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Por Hildérico Coutinho

Na simpática Vila Alice existe um espaço com um aninho de vida – ainda cheira a novo – apelidado de “a República”, assim mesmo com o “a” minúsculo antes da República. Este espaço foi assim batizado porque, desde há muitos anos atrás, que, naquela casa, pertença de um casal muito admirado e procurado, existia uma autêntica república, pois gente proveniente de todo o lado procurava comer a qualquer hora do dia e da noite uma iguaria preparada pela Lurdinhas… Por tal e porque a paixão da Lurdes Silva pela cozinha é muita, esta resolveu criar, após o infeliz passamento de seu marido, na sua própria habitação, um restaurante, mantendo desta forma a confusão de sempe… e ainda bem que o fez, pois caso contrário não a teria podido conhecer e não poderia desafiá-la para eventos que a maioria não aceita.

Decorreu na passada sexta-feira, dia 22 de Abril, um desses desafios, um jantar enogastronómico com os vinhos a serem servidos em prova cega, ou seja, os participantes sabiam se o vinho era branco ou tinto porque os copos eram transparentes, mas mais nada era dito antes do fim de cada prato e vinho serem degustados.

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O primeiro prato a ser servido foi uma simpática entrada de bacalhau com molho bechamel, embrulhado num fofo crepe em forma de lenço e numa cama de umas sempre difíceis de arranjar folhas de rúcula que com o seu toque picante bem ligaram às notas de leite do molho bechamel. Muito equilibrada e bem conseguida entrada que foi muito bem acompanhada, na opinião generalizada dos comensais, por um branco com algum corpo e alguma untuosidade, própria da casta Encruzado, a mais valorizada casta do Dão e que, estranhamente, ainda pouco saiu de onde nasceu, tendo e conta a sua grande qualidade para fazer vinhos na lógica dos Chardonnay mas com sabores lusitanos. Este Cabriz Encruzado 2012 mostrou-se em muito boa forma e com mais alguns anos para evoluir favoravelmente. Ligeiras notas fumadas juntaram-se a uma suave mineralidade, pederneira e frutas e flores brancas. Um engano no serviço de uma garrafa levou à situação caricata de alguns comensais estarem a beber água salgada e a pensarem que fazia parte do jogo. As minhas desculpas por esse lapso. Não fazia parte, mas passou a fazer…

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Veio depois um original filete de peixe recheado com banana e acompanhado com simplicidade por um arroz selvagem. Aqui pecou a apresentação do arroz, já que o molho de açafrão, ou melhor, de curcuma, que cobria o peixe lhe deu um colorido fantástico. Escolhi para acompanhar este prato um vinho que tem alguma doçura e aromas a laranja, flor de laranjeira e pêssego. Notas normais de uma das melhores castas portuguesas e que um participante bem conhecido de todos vós logo detetou. Outros detetaram a região, mas ninguém e também não o esperava, juntou a casta à região. O vinho era do Douro e isso muitos perceberam pelo corpo e algum peso alcoólico apresentado, mas ele é feito com Alvarinho, algo que começa a ser cada vez mais usual na região, mas ainda assim bastante raro. Este vem daquela que segundo consta é a maior vinha de Alvarinho do país e fica na Quinta do Cidrô, em pleno Douro Superior. Uma surpresa para muitos que sabem ter esta casta nascido no Minho, bem juntinho à Galiza, de onde aliás poderá ter vindo, quien sabe?

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Veio a seguir a carne que, infelizmente para mim, mas não para a maioria, vinha um pouco cozinhada de mais. Ainda assim, mostrava toda a qualidade de um bom filet mignon, de uma macieza deliciosa ajudada por um belo e aveludado molho de ervas e Vinho do Porto. Aqui aconteceu mais um momento delicioso da noite com um meu companheiro de mesa a poder jurar, pelo aroma, que o tinto, por quem metade da sala ansiava, era sul-africano, mas, completou, dizendo que não era da África do Sul por nunca ter visto um português a servir um vinho não português. Foi este preconceito que o perdeu, pois o vinho era mesmo sul-africano e demonstrou que não me conhece suficientemente bem. O meu mundo é o do bom vinho e ele pode vir de qualquer canto deste planeta, sem exceções, pois em todo o lado se faz bom vinho e também, para azar de palatos mais refinados, se fazem péssimas mistelas. Este KWV The Mentors Orchestra 2011, é um vinho feito com cinco castas de Bordéus e fiquei surpreendido por apenas o nariz da minha mulher ter detetado a Cabernet Sauvignon, uma das mais fáceis de identificar, na minha modesta opinião. As outras eram a Merlot, a Cabernet Franc, a Petit Verdot e a Malbec. Curioso foi ver quase toda a gente colocar este vinho, que pouco tem a ver com o perfil dos tintos portugueses, em Portugal! Terá sido o preconceito?

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Para a sobremesa um sempre agradável pudim de batata-doce que, para mim, estava um pouco maçudo, algo a que a batata não será por certo alheia. Para acompanhar escolhi um vinho pouco conhecido por estas bandas e difícil de encontrar, um colheita tardia, mais conhecido no mundo dos vinhos pelo seu significante em inglês Late Harvest. Neste caso, além de as uvas terem sido apanhadas para lá do tempo habitual, e daí o nome, foram apanhadas podres! Sim, por mais estranho que vos pareça, estavam podres, mas não com uma qualquer podridão, que elas não são umas quaisquer… tinham a chamada podridão nobre, provocada pelo fungo Botrytis Cinerea. Estes vinhos são muitas vezes designados por botrytizados para os distinguir dos restantes colheitas tardias que não são por ele afetados. São, no entanto, estes os mais desejados, procurados e apreciados, com a França, a Alemanha e a Hungria a produzirem alguns dos melhores e mais caros exemplares do mundo. Portugal, não sendo muito reconhecido neste estilo de vinhos, vai já fazendo algumas coisas bem-feitas como foi o caso do vinho apresentado e produzido pela Real Companhia Velha, um histórico dos vinhos do Porto, tratou-se do Grandjó Late Harvest 2008 que se apresentou untuoso, com aromas e sabores a pêssego, geleia de manga, laranja confitada e uma bela acidez que controlava o açúcar residual que estes vinhos sempre apresentam. Uma forma doce de acabar uma noite bem gostosa…

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Hildérico Coutinho
Escanção/Sommelier
Clube Nómada
Vinhos, Gastronomia & Outros Prazeres…

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