Uma prova cega no Vamo’s

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Por Hildérico Coutinho, Escanção/Sommelier

A segunda edição do Prova Cega decorreu em Talatona, no Restaurante V’amos, bem próximo do centro financeiro, orientado e chefiado pelo José António Rodrigues, um homem que não gosta muito de aparecer mas adora que por lá apareçam novos rostos. Foi esse o desafio e foi isso que aconteceu com muitos novos rostos naquela casa que vai trabalhando bem mesmo com todas as vicissitudes por todos conhecidos. Nesta edição incorporámos um novo hábito, o de permitir aos comensais classificarem os vinhos e as harmonizações conseguidas numa classificação que vai de 0 a 5. Colocamos assim no fio da navalha o enólogo e produtor do vinho por um lado e eu por outro por estar encarregue das maridagens.

Começamos com uma Salada de búzios e ovas em que os búzios pouco trouxeram ao prato, mas o mesmo não se pode dizer das ovas que estavam saborosas e no ponto certo de cozedura. Na escolha do vinho para este prato a minha maior preocupação era, claro, o vinagre. Qual não foi a minha surpresa ao verificar que quem estava a dificultar o casamento com o vinho era nem mais nem menos que a insuspeita salsa ao deixar um travo amargo bem forte que o Virgo 2014, um branco alentejano elaborado com a casta Viognier com passagem só por inox, que se apresentava tão fresco que alguns pensaram tratar-se de um vinho verde, sentiu dificuldade em se sobrepor. Isso mesmo sobressaiu na classificação ao darem 3,5 ao vinho e apenas 3 à maridagem.

Um arroz de tamboril e camarão foi o prato que se seguiu de bom sabor mas com um pouquito de sal a menos, nada que se não corrigisse com facilidade. A companhia foi dada a outro Viognier alentejano, Torre do Frade 2013, este com estágio em madeira de carvalho francês durante 5 meses com batonage semanal, que se apresenta bem, mas não é um típico Viognier, com bastante mais acidez que o habitual. Aqui o vinho conseguiu os mesmos 3,5 valores, pois houve quem não apreciasse alguns dos aromas tostados que a madeira lhe confere, mas a harmonização subiu para uns simpáticos 3,9 pontos.

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Seguiu-se um estufado de codorniz, cogumelos e bacon com puré de batata e salada verde que me tinha sido “vendido” como sendo um prato potente. Para não fazer má figura escolhi um vinho alentejano mas com grande predominância da Alicante Bouschet que altera substancialmente o caracter mais sonolento dos tintos alentejanos. O resultado foi desastroso com o vinho a atropelar a coitada da codorniz. 3,7 para o vinho e uns simpáticos 2,7 para a maridagem. Eu teria dado bem menos. As minhas desculpas aos comensais, mas é de tentativa e erro que vamos tendo conhecimento para os evitar no futuro.

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Uma famosa sobremesa, Tiramisu de seu nome, que leva café e, pensava eu, grappa, a famosa bagaceira italiana, pois lembrava-me de um sabor alcoólico em alguns doces destes que comi. Uma pequena investigação permitiu-me confirmar a utilização de aguardentes velhas nalgumas receitas, mas a original não leva nenhum álcool. Ainda bem pois aquele toque de álcool andou a atazanar-me a cabeça a pensar numa boa ligação com um vinho doce. Acabei por optar por um Vinho do Porto Colheita 2000 da Poças que fez a que foi considerada a melhor maridagem da noite, além de o próprio vinho ter obtido também a melhor pontuação com 4 valores e 4,3 para a harmonização. Sempre me surpreendo pelo desábito aqui existente de acompanhar a sobremesa com um vinho doce. Qualquer coisa que comamos fica mais tempo e mais impregnado na boca que algo que bebamos, daí a necessidade de a bebida ter pelo menos a doçura da sobremesa. Usar o oposto, ou seja, um vinho seco, não me parece em geral uma boa opção.

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Os Colheita são uma categoria especial dentro dos Tawnies pois ao contrário do normal não são feitos misturando vinhos de anos diferentes e com tempos diferentes de estágio em barricas velhas. Estes, como o nome indica, é elaborado com vinho de um ano só e por isso manifesta o carácter do ano, por vezes mais solarengo, outras vezes mais chuvoso, isto sem contar com o número de anos em que está a estagiar nas tais barricas velhas, que tanto podem ser 8 anos, o mínimo, como podem ser 20 ou 30 ou mais anos. E isso faz toda a diferença…

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Hildérico Coutinho
Escanção/Sommelier
Clube Nómada
Vinhos, Gastronomia & Outros Prazeres…

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