Qual foi a última vez que foi um bom cliente?

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Um texto de opinião escrito por L.F. Tem uma opinião para partilhar sobre a restauração em Luanda? Envie-nos um email para o contactos@luanda-nightlife.com

Quem nunca se aborreceu com a qualidade do atendimento em Luanda que atire a primeira pedra. Já todos, com certeza, passamos pelas demoras, pelo esquecimento, por uma cara de interrogação quando perguntamos o que leva este ou aquele prato.

O atendimento, na generalidade, ainda deixa muito a desejar, com falhas que levam os mais pacientes a ataques de histerismo, entre elas, a falta gritante de formação, de profissionalismo, ou até mesmo a falta de tempo…em horário de trabalho.

Os exemplos são vários: a senhora do banco que está ocupada com a última novidade facebookiana. O senhor da caixa do supermercado que nem nos olha na cara, quanto mais dizer “bom dia” ou “boa tarde”. Os funcionários do serviço público que desde a falta de “sistema” à sua sistemática má vontade nos fazem acreditar que trabalhar mesmo não é com eles. E os empregados de mesa, que demoram, que se esquecem, que não têm vontade.

E assim, feita a crítica fácil e acessível a qualquer um detentor de alguma preguiça (em contraste com o seu paupérrimo poder analítico) …Vamos aos próximos “quem nunca”.

Quem nunca se aborreceu com a falta de educação de um cliente em Luanda que atire a primeira pedra. Já todos, com certeza, passamos pela má educação, pela arrogância, por uma cara de novo riquismo indignado quando o prestador de serviços lhe pede – devendo, no mínimo, exigir – um “bom dia”. Ali, aqui, mesmo na mesa do lado.

Os clientes, na generalidade, ainda deixam muito a desejar, com falhas de carácter que levam os empregados mais pacientes a ataques de histerismo – que se acontecerem fora do seu campo mental podem colocar em risco o seu emprego – entre elas, a falta gritante, também, de formação do cliente, a falta de humanismo. De educação.

Os exemplos, também aqui, são vários. O senhor que vai ao banco e sacode os seus anéis e apelido ao segurança que organiza a fila, explicando-lhe que ele não espera como todos os outros. A senhora que trata o funcionário do supermercado como se ele fosse a própria caixa – objecto inanimado de passar códigos de barras e, por isso, não merecedor do seu cumprimento. As pessoas que chegam aos serviços públicos a exorcizar todas as suas frustrações da vida no “sistema” e a sua sistemática apatia que nos faz acreditar que melhorar esta sociedade não é mesmo com eles. E os clientes de restaurantes, que querem tudo para ontem (para os mais desatentos: a comida … cozinha-se! Rapidez é coisa de buffet, uma boa opção para os apressados), que se esquecem sempre de agradecer ao empregado pelo serviço, que pura e simplesmente almoça e janta acompanhado de amigos, família e arrogância. Tudo, excepto simpatia.

Pois é, se o atendimento em Luanda não é dado a muitas estrelas, convenhamos que os seus clientes também não. E indo ao pavloviano básico, se calhar trata-se tudo de uma questão de acção-reacção. Será? Vejamos, se o cliente for mais simpático e compreensivo o atendimento melhora? Hmmm. Bazinga?!

Quando nos sentamos numa mesa de um restaurante, ou numa esplanada – afunilando esta questão apenas para a restauração – não nos tornamos, assim num acto apocalíptico, senhores e guardiões de toda a verdade. Portanto, é bom esclarecer logo que a velha máxima do “cliente tem sempre razão” é ultrapassada e extremista: anti-democrática. O cliente não tem sempre razão, certo; e merece ser bem atendido, entendido.

Como podemos então, todos, melhorar o cenário?

A solução não me parece enigmática, e é até bastante acessível. Pensemos, um dos principais problema do atendimento em Luanda está associado à falta de formação (ensino esse que, se não profissional, está a cargo dos proprietários do estabelecimento ou do seu chefe de sala, no caso dos restaurantes).

Acontece que, tal como os clientes, o proprietário e o chefe de sala também, e muitas vezes – vezes demais – consideram ter sempre razão, e que isso lhes dá o direito de serem mal educados e arrogantes com os seus colegas.

Quem nunca viu um chefe de sala ou o proprietário de um restaurante humilhar um empregado de mesa que atire a primeira pedra … outra vez. Nada mais, nada menos que o famoso complexo de feitor, que hierarquiza, humilha, demarca o “chefe” como alguém muitíssimo diferente de todos os outros – O CHEFE!. Que maltrata e expõe em público. Causando o repúdio a qualquer cliente com dois dedos de testa.

Não há nada pior do que assistir a uma cena dessas. E a mensagem é clara: o proprietário, ou o chefe de sala, são uns autênticos idiotas com um prazer perverso, e digno de terapia, em humilhar as pessoas que deveriam estar a formar, as quais precisam de criar confiança e entender a arte do bem servir. E como não se faz limonada sem limões, ou petit gâteau sem chocolate, não se faz um bom restaurante sem uma boa equipa, com pessoas competentes, formadas e educadas.

Não temos, portanto, um cenário animador. A boa notícia é que é possível revertê-lo, sem esforços hercúleos.

Comecemos todos pela educação. Um “bom dia” ou “boa noite” fazem milagres, e devê-mo-los a todos, sem excepção. Agradecer é fundamental. Os prestadores de serviço são, sim, pagos para isso – na maioria das vezes, muito mal (mas isso é outro texto) –como nós somos pagos para executar os nossos serviços, e gostamos – alguns de nós, acertadamente, exige – de um “obrigado”.

Continuemos agora com a tolerância. Os dias nem sempre são de sol e o mundo nem sempre está direito, mas um atraso, um cair de talher ou um despejar de copo nervoso e acidental não vão estragar absolutamente nada. Pensem bem: absolutamente nada. Os atrasos são chatos, é sabido, mas temos mesmo que culpar o empregado de mesa pelo atraso dos fornecedores, pelo volume de trabalho gigante na cozinha, pela falta de luz aqui, pelo nervosismo dele ali, por um esquecimento, pela guerra na Síria? Não, não temos. Temos que demonstrar respeitosamente a nossa pressa e tentar entender, com calma, o que se está a passar.

Ainda, e agora, o tom. O tom pode ser muito, muito irritante. Há muita pouca coisa mais chata do que aquele cliente que acha que “comprou” o empregado de mesa. Que lhe fala em tom de ditador. Calma com a arrogância, boa gente, não há maior espelho de novo-riquismo e falta de educação do que a arrogância plasmada numa voz ou num olhar por se acreditar que se é “superior”. Sabe-se que vivemos num país de “ordens superiores”, mas desenganem-se: somos todos iguais. Tratemo-nos como tal, com respeito. E assim, muito provavelmente, com respeito e simpatia serão tratados. A arrogância só revela pequenez.

Depois, e por último, a formação. O proprietário de um restaurante ou procura profissionais formados ou toma a decisão de os formar. É preciso notar que, uma vez que não estamos a ensinar robots, todos nós precisamos de tempo para aprender…e falhar – nada de muitas pressas a abrir o vosso restaurante, sim? A repreensão pública é execrável, e só agrada aos arrogantes do parágrafo acima. O empregado de mesa é um dos principais motivos que leva o cliente a regressar, deve ser respeitado, trabalhar num sítio com bom ambiente e num espírito de equipa e igualdade. Havendo hierarquias – maldito ópio dos “poderosos”– lembremo-nos que com todas as peças se concluiu um puzzle, se faz um prédio, se serve uma boa refeição. Todos somos, sim, fundamentais no nosso local de trabalho. Fica o conselho: não voltar nunca a um restaurante que, em praça pública, humilha um empregado de mesa. O nosso dinheiro deve ir para o bom serviço, e não para alimentar mentes distorcidas, encher-lhes os bolsos e os egos,

Há sim muitos problemas para além destes, e podemos até todos ser excelentes clientes, colegas e chefes e, mesmo assim, o prestador de serviços cometer erros ou ter má vontade, mas ai, e com toda a certeza, o proprietário do negócio ou responsável pelo serviço pode tomar uma medida baseada em argumentos profissionais e humanos que ninguém irá estranhar.

Antes de fácil e rapidamente culparmos os prestadores de serviço, será que podemos analisar se, ultimamente, temos sido bons clientes, colegas, formadores ou chefes? Temos sido mesmo boas pessoas?

De pouco serve expor os restaurantes onde o serviço tem problemas – até porque todos precisamos de algum tempo para identificar os nossos erros (todos podemos ter dias maus) e o nosso melhor denunciador será sempre o cliente – mas vale sim, e muito, deixar algumas sugestões onde, em Luanda, o atendimento é maravilhoso.

Já foram ao Burako da Floresta? Pois se ainda não foram está na altura de visitarem uma das equipais mais prestáveis e simpáticas de Luanda. Com sorte, apanham aquelas noites onde, depois do serviço, a equipa relaxa um pouco e ainda se diverte – sempre de uma forma extremamente respeitosa – com os clientes.

Nota cinco também para o serviço do Café Del Mar, super afáveis e profissionais. Tranquilos.  E não esquecer o Fazendeiro, no Talatona, um verdadeiro exemplo do saber servir e do espirito de equipa. Dá gosto voltar pela simpatia. Antes do ponto final, uma referência também ao óptimo atendimento na Taverna do Morro, no Morro Bento.

A educação e o respeito podem alimentar-nos muito mais do que qualquer sugestão do menu. E se é para termos uma boa refeição, pois que nos sentemos todos à mesa, iguais, para discutir o que precisamos melhorar.

L.F.

*Os textos de opinião no Luanda Nightlife são da inteira responsabilidade dos seus autores e não vinculam a opinião do portal.

Foto do título por Carlos Aguiar, no Restaurante Fazendeiro

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