Notas sobre Paris

In Features, French, International, Paris, Sugerido por by Luanda NightlifeLeave a Comment

Texto por Hildérico Coutinho
Escanção/Sommelier, Membro do Júri LNL

Começo a escrever sentado numa das muitas esplanadas na Av. de Wagram, uma avenida assim designada para celebrar a vitória de Napoleão Bonaparte sobre o Arquiduque Carlos da Áustria em Deutsh-Wagram a 15 Km de Viena.

Nada mais apropriado, dado ser uma das 12 avenidas a desembocar na Praça Charles de Gaulle, onde se encontra o monumental Arco do Triunfo, que deveria ter subido para ter podido apreciar a paisagem a 50 metros de altura, mas o cansaço da caminhada e um belo pedaço de carne num pão de uma senhorita quando por aqui passei a primeira vez obrigaram-me a voltar para trás… Alguns de vós por certo me entenderão…

Para mal dos meus pecados, a carne não está bem temperada apesar de ser de qualidade e acabei perdendo, por causa da gula, a oportunidade de comer um Croque-Madame que dizem ter sido a sandes que inspirou o criador da grandiosa Francesinha, uma especialidade da cidade invicta!

O que mais me chateou porém foi ter estado num restaurante onde finalmente encontrei copos apropriados para beber vinho e eu estava em abstinência alcoólica depois de uma semana dura no Vale do Loire.

Podem não acreditar e eu certamente duvidaria, sabendo ademais que Paris é um brutal consumidor de vinhos, mas a probabilidade de encontrar um restaurante com copos adequados nesta cidade é muito baixa.

Vou abster-me de nomear os espaços por onde vou passando por achar que o vosso instinto vos levará por certo a locais de igual ou melhor qualidade, desde que fujam, ou melhor, tentem fugir, pois numa cidade como Paris isso não é fácil, dos locais com maior afluxo de turistas, pois um espaço que sirva exclusivamente turistas está demasiadas vezes pouco preocupado com a qualidade pois partem do princípio que o cliente de amanhã não é o de hoje, algo que começa a mudar por causa das redes sociais e programas que as utilizam que estão a por em sentido as pessoas com este tipo de atitude.

Eu sei que para muitos de vós esta minha preocupação com os copos é um exagero e eu só vos poderia contradizer demonstrando na prática o quanto eles influenciam o resultado final e como sei que os franceses são fenomenais a vender a sensações, fico estarrecido com esta displicência, pois mais que ninguém eles devem promover a exclusividade que advém da qualidade.

Faço por isso aqui a única exceção, O Château, facilmente detetável googlando, como o único local onde estive que tinha mais de um tipo de copo, nem sempre bem utilizado é verdade, mas sempre disponíveis para o corrigir, com opções de consumo de vinho de todas as maneiras e feitios e não fica longe de um dos mais carismáticos e charmosos locais de Paris, o Quartier Latin onde decorre o belíssimo filme O Fabuloso Destino de Amelie de Jean-Pierre Jeunet que aconselho vivamente a todos.

Ô Chateau, Paris

No meu passeio a caminho do Arco do Triunfo entrei num pequeno supermercado que começou por me surpreender pela enorme quantidade de filas com armários de frio. Aí, além dos produtos que encontramos em todo o lado vi o que justificava tanto frio, comida pré-cozinhada: Francesa, italiana, magrebina, indiana, para vegetarianos, sem glúten, etc.

Suspeito que a famosa culinária francesa estará em breve confinada aos espaços rurais, se estes supermercados não chegarem lá antes…

Algo mais me causou também alguma surpresa, a presença cada vez maior de queijos estrangeiros. Matutando um pouco e apesar do meu limitado conhecimento dos queijos franceses, não será fácil conhecer os 1200 que dizem produzir, mas acreditem, eu esforço-me!, percebi que muitos deles têm o mesmo método de produção e por isso são similares, não admirando pois a presença de um Manchego espanhol ou de um parmegiano italiano, mas alguma estranheza na presença de um Stilton inglês, um queijo azul na linha dos muitos produzidos em França com o óbvio destaque para o Roquefort.

Fiquei com a sensação que os portugueses terão aqui uma boa chance de se mostrarem e estou pensando no Serra da Estrela, mas também nos bons queijos de Évora, Açores, Azeitão e nos picantes da Beira Baixa que são mais salgados que picantes.

Mas voltemos ao Arco do Triunfo que Napoleão mandou construir em 1806 inspirado ainda pela grande vitória na Batalha de Austerlitz em Dezembro de 1805 para, tal como os romanos, celebrar suas vitórias. Curiosamente o monumento só foi concluído 30 anos depois, muitos anos após a sua morte em 1821 e da derrota às mãos dos ingleses na famosa Batalha de Waterloo em 1815…

Encontram-se inscritos no monumento 558 nomes de generais franceses e de 128 batalhas, entre as quais as de muitas cidades espanholas e portuguesas e onde está também afinal a da minha não tanto cidade invicta. Não deixa de ser curioso nos dias de hoje, onde se tenta avaliar o comportamento dos esclavagistas à luz dos valores atuais ninguém se recordar que este monumento glorifica comportamentos que infligiram o mesmo tipo de dor e humilhação. A vergonha dos vencidos e subjugados …

O sol está a ir-se embora e isto não é Angola, o frio começa imediatamente a tornar desagradável aquilo que estava a ser um belo final de tarde. Au revoir…

Bonjour! Sentado numa outra esplanada, desta vez nas imediações da Boulevard Saint-Germain, tomo um café expresso Lavazza (quem diria há uns anos atrás?) e aprecio a fauna local que por mim vai passando de muitas cores, estilos e certamente credos. Esta multiculturalidade, que deixará por certo os cabelos em pé aos nacionalistas é o que mais me fascina e agrada ver e sentir nestas cidades. É mais um sinal que mesmo havendo preocupantes ataques de populistas da extrema-direita e da extrema-esquerda contra a globalização, ela se vai paulatinamente impondo.

Para aqui chegar atravessei o Museu do Louvre onde pude sentir toda a sua magnificência, mas também senti o peso da sua imponência e isso fez-me pensar nos egos e na necessidade que alguns de nós têm de mostrar aos outros os quão pequeninos eles são. Quem mandou isto construir não tinha por certo uma forma muito diferente da de Hitler de se sentir superior. Este último mandava construir salas de receção de tamanho descomunal para que os visitantes se sentissem pequeninos e intimidados. Seria o objetivo aqui muito diferente?

Já viram que ando com sentimentos contraditórios, vou dar uma voltinha pela Notre-Dame para ver se isto melhora…

Atravessar o Sena fez-me bem. Assisti a uma curiosa regata, que mais me pareceu um passeio, de Shell 4, o nome que segundo a minha rápida investigação se dá ao nome de barcos a remos com quatro remadores e que neste caso também tinha timoneiro. O melhor local do barco, claro está! Mas como são os pequeninos e magrinhos que normalmente ocupam este lugar, eu estou fora… Uma quantidade imensa deles com todo o tipo de remadores e até a um choque sem consequências entre barcos tive oportunidade de testemunhar. E o rio que parecia tão largo…

Aproximei-me da imensa Catedral de Notre-Dame, mas apenas tive oportunidade de tirar um par de fotografias, pois o S. Pedro não deve gostar de ateus a rondar a coisa e mandou uma carga de água que me obrigou a bater em retirada. Refugiei-me numa perfumaria e aproveitei para perguntar qual seria o local mais interessante e com menos turistas possível. A resposta foi de encontro a outra recomendação e lá fui eu para a zona de Marais, um local realmente delicioso e onde encontrei um personagem montado numa bicicleta que mais parecia ter saído do País da Alice. Delicioso!

Sentei-me num dos muitos restaurantes existentes na zona e que me pareceu o mais francês possível, pois não venho a França para comer comida japonesa ou italiana por mais que me apeteça.

A chuva não me permitiu fazer nenhuma volta exploratória e foi pena, uma vez que encontrei depois um lindíssimo restaurante imensamente concorrido, o que nestas coisas sempre significa qualquer coisa.

O Croque-Madame não estava disponível e para a despedida não consegui resistir a um foie-gras da casa que vinha acompanhado por uma cebola caramelizada em algum vinho doce e uma pitada de sal grosso para acentuar o paladar e nos impedir de ficar enjoados… Procurei na lista de vinhos, sem sucesso, aquele que é o amante principal deste prato, um Sauternes, mas teria ficado igualmente agradado com um Chenin Blanc doce do Vale do Loire. Tive de me contentar com um vinho doce básico do Languedoc. Cacei com um gato mas deu para finalizar prazenteiramente esta minha primeira visita a Paris. A voltar com companhia adequada…

Hildérico Coutinho
Escanção/Sommelier

 

 

 

 

Comments

comments