Morro do Moco: Uma Volta Pelas Nuvens

In Features, Huambo by Luanda NightlifeLeave a Comment

Por Gretel Marin e Edulo Batalha

Quem ouve falar do Morro do Moco pela primeira vez talvez seja incapaz de imaginar que aquilo, mais que um morro, é uma grande montanha! Os nossos amigos Amilkar e Marcela tinham-nos proposto subir ao ponto mais alto de Angola e acampar ali para receber o ano novo. Nós aceitámos, muito entusiasmados, sem imaginar minimamente a aventura que nos esperava.

Chegámos à aldeia de Kassonge – que fica no sopé do Moco – no dia 31 de Dezembro de 2016. Tínhamos decidido acampar à noite e no dia seguinte iniciar a caminhada. Há duas entradas desde a estrada principal para lá chegar. A entrada recomendável é a que tem uma placa verde com a indicação  “Morro do Moco a 15 Km”. Essa entrada só se vê do lado esquerdo se estamos a vir do Huambo, antes de chegar à Vila de Ussoque.

No início da picada para Kassonge pensámos que podíamos nos perder, mas as pessoas que se encontram no caminho são simpáticas e oferecem as indicações necessárias para chegar. Encontrámos um casal de mais-velhos que entre umbundu e português nos indicaram a rota. Dois cães os acompanhavam, fieis e amistosos.

A estrada tem algumas ravinas e buracos, por isso é preciso ter um veiculo 4×4. Íamos numa Land Cruiser sem grandes apetrechamentos: nem guincho, pás ou outras ferramentas especiais (o driver não disse nada à malta, mas nem pneu de socorro tínhamos: “pé na tábua e acreditar, que para quem é do bem não tem nada a temer!”). Durante o caminho apanhámos chuva e foi necessário ligar algumas vezes a tracção mas só como medida preventiva. Passa-se por uma ponte metálica antes de uma fazenda do lado esquerdo e logo por uma aldeia com um Bar-Cuca do lado direito. Levámos cerca de 25 minutos a chegar a Kassonge.

Já na aldeia fomos recebidos pelo adjunto do Soba que nos indicou onde devíamos estacionar a viatura. Para nos abrigar da chuva, uma família jovem e modesta convidou-nos para entrar em casa. Rapidamente acendeu-nos um fogo bem quente. Como a chuva não cessava ficámos cerca de uma hora por lá a conversar com a malta e ouvir algumas historias da aldeia. Deram-nos dicas sobre as várias plantações que têm e como funciona o sistema de plantio e colheita da comunidade. Moram ali cerca de 420 pessoas, bué de mais-velhos e ainda mais crianças. Quando a chuva cessou, os habitantes da aldeia foram saindo de suas casas e alguns vieram saudar-nos.

O adjunto levou-nos para cumprimentar o Soba. Para nossa surpresa o Soba era um homem muito jovem. Convidou-nos a entrar em casa dele e ficou calado enquanto o adjunto nos contava histórias intermináveis. De repente o Soba – de 34 anos –interrompeu-lhe: o dia estava a morrer e era melhor nós irmos montar as tendas, não sem antes entregar os 4.000 Kwanzas de “imposto”. Entregámos, assim como alguns mambos que tínhamos comprado como oferenda: aguardente, fósforos, sabão e sal. Se calhar na próxima ofereceremos um volume de cigarros SL (a malta na aldeia fuma bué e passava o tempo todo a nos pedir cigarros!).

Depois deste “ritual” indicaram-nos o sitio para acampar num campo de futebol improvisado a 200 metros da aldeia. Sendo que estávamos na época das chuvas durante a noite tivemos algumas dificuldades em acender o nosso fogareiro. Mas conseguimos. Deu para para dar aquele toque no cuscuz com belos acompanhamentos de chuva e rum. Tínhamos combinado que partiríamos por volta das 4h00 da manhã mas a essa hora ainda chovia. A caminhada iniciou-se às 8h30, mas antes tomamos o matabicho (pequeno-almoço): café instantâneo, flocos e uma dose inevitável de fumo vindo do fogareiro em casa das pessoas que tinham-nos acolhido.

Foi-nos indicado um guia que nos apoiaria na subida. Uns 20 minutos depois da caminhada apareceram ainda dois miúdos que também nos foram acompanhando. Obviamente com uma capacidade invejável para subir e descer os vales. Para terem uma ideia, até flexões e abdominais fizeram quando alcançamos o topo do Moco. Sobre o guia, aconselhamos que seja acordado um preço logo no início. Nós pensávamos que o serviço estava incluído na oferenda do soba e nos 4.000 Kwanzas que tínhamos entregue. No final demos 2.000 Kwanzas; algum tempo depois, mais 1.000 e ainda achamos que não ficou satisfeito. Contudo, o guia é fundamental para subir a montanha.

Subimos o Moco na época das chuvas, portanto, se for nessa altura, prepare-se para ficar molhado. Convém também ir o mais leve possível, levar sapatos e roupas confortáveis, capa impermeável, chapéu, água, pelo menos 2 Cucas (meia Cuca por pessoa parece-nos um rácio razoável), alimentos com açúcar (a marmelada salvou vidas!), etc.

 A caminhada iniciou-se entre o verde, a neblina e a visão do Moco. Iniciou-se também com o entusiasmo de quem ainda não sabia o que lhe esperava. A informação que tínhamos é que demoraríamos cerca de 2 horas a chegar ao ponto mais alto de Angola…hehe! Jajão em modo motivacional talvez. Pensámos que a montanha que está nas costas de Kassonge era já o Moco, mas não era assim, provavelmente seja o casule do Moco!

Os primeiros minutos foram feitos em terreno relativamente plano mas rapidamente fomos confrontados com uma descida que nos levou a um riacho. Por mais malabarismos e ginásticas que fizéssemos para encontrar um “bom” caminho sobre as pedras, inevitavelmente ficamos molhados até aos joelhos (galochas eram o calçado do guia…talvez uma boa dica em termos de vestuário).

Após o “mergulho” no riacho começamos a subir uma montanha íngreme, passando por uma lavra onde predominava o amarelo brilhante das plantações de milho. Quando chegamos ao topo também pensámos que era o Moco, mas fomos informados pelo dedo indicador do Guia que o Moco era lá: uma hora de caminhada no relógio dele, não no nosso. O caminho indicado era uma linha irregular – cor café – que parecia desenhada sobre a montanha. Decidimos fazer uma pausa para observar. O verde estendia-se por quilómetros, com clareiras de sol por um lado e por outro aproximavam-se nuvens carregadas de chuva séria. Sim, quem sobe o Moco na época das chuvas verá a chuva a vir, mas conseguirá acariciar as nuvens.

Sobe morro, desce morro, atravessa riacho, sobe morro, desce morro, atravessa riacho, desfruta o vento, ouve o pássaro, sente o estremecer da terra com os teus passos cada vez mais pesados, ri com as crianças a dançar e contar flexões. Pára para ver aquela planta-flor com cores que nunca tinhas visto, cheira o verde: florescente, liquido, transparente, opaco, verde de verdade -não de verdades absolutas e resolutas- é mesmo verde-de-verdade. Toda a paisagem anteriormente descrita pode ter sido vista ou talvez alucinadamente imaginada por termos menos oxigénio no cérebro… ou pelo nevoeiro dos nossos olhos.

Depois de quatro horas de marcha, chegamos ao topo. Cansados, molhados, mas satisfeitos. Imaginámos que íamos desfrutar da mesma paisagem que há pouco, mas foi melhor. A paisagem tinha voltado completamente lunar, como se a cena agora estivesse a acontecer num novo planeta. As nuvens andavam sem pressa frente aos nossos olhos, tingindo toda forma de cinza e neblina. Já nem pensávamos no mundo lá em baixo: nem na aldeia, nem nas maçarocas à nossa espera, nem sequer no caminho de volta. Estávamos aí, no nosso agora e nos deixávamos levar.

Comments

comments