Gabela: a beleza selvagem de uma antiga rainha

In Features, Gabela by Luanda NightlifeLeave a Comment

Texto: Pedro Correia
Fotografia: Vasco Célio

Este artigo foi publicado na edição Dezembro-Janeiro 2016 da Revista Rotas & Sabores, parceiro de mídia do Luanda Nightlife. Leia a revista na sua íntegra aqui.

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A viagem é agradável. De Luanda à Gabela são cerca de 400 quilómetros e, porque só pode ser feita por estradas que já conheceram melhores dias, em média dura seis horas. Em Porto Amboim, a pouco mais de metade do percurso, fazemos a pausa para o almoço. Seguimos caminho em direcção ao Sumbe e viramos à esquerda no desvio que surge 50 quilómetros depois, logo a seguir ao Instituto Nacional de Petróleos.

Antes de chegar à Gabela, ao quilómetro 27 da estrada que liga o Instituto Nacional de Petróleos à sede do município do Amboim, desfrutamos de um dos grandes espectáculos da natureza naquela região, proporcionado pelas águas do rio Keve que, mais à frente, nas cachoeiras do Binga, se precipitam do alto de 150 metros para um mar de espuma que abre caminho por entre o verde da paisagem. Mas a Gabela fica ainda a cerca de 50 quilómetros percorridos por entre montes e vales verdejantes numa paisagem deslumbrante interrompida aqui e ali pelo cinza de enormes montanhas de pedra e de impressionantes aglomerados de rochas.

E ao chegar, do cimo da montanha sobranceira, vemos a Gabela espraiar-se pela garganta que a divide ao meio em vales paralelos sarapintados do verde das árvores e do laranja-acastanhado das paredes das casas construídas em blocos de barro. Ao longe, a parte alta da vila guarda os edifícios mais antigos herdados da obra colonial com a vigilância afastada de duas grandes serras de pedra cinza.

A Gabela foi, até aos anos 70, uma das mais prósperas terras de café. Um longo conflito armado depois e quase meio século passado, podemos voltar a percorrer os cafezais e os campos agrícolas onde renascem as culturas do milho, batata e batata-doce, feijão e ginguba (amendoim). Ao percorrermos os caminhos para chegar à Gabela, o cheiro da fruta chega-nos da beira da estrada. Pequenos mercados florescem coloridos em bancadas improvisadas onde se amontoam sorrisos e pregões para vender a melhor banana, o ananás mais perfumado, a laranja mais colorida e a maçã mais bonita.

Já abastecidos de fruta, subimos primeiro ao verdejante Morro do Cruzeiro, bem no centro da vila, para visitar as ruínas do velho fortim da Gabela (Séc. XIX), apreciamos depois a vista sobre uma parte da vila, no Morro da Cruz, antigo local de culto católico onde existe uma capela e a Cruz de Cristo e, finalmente, visitamos o Morro de Santo António, outro local de culto católico que guarda o Santo e onde está em construção uma igreja. Por uma escada escavada na rocha, subimos o morro para desfrutar de uma vista única, uma vista panorâmica, de 360º, sobre a nova e a velha Gabela e seus arredores espectaculares. Ao longe está outro ponto de interesse que vistamos a seguir.

A fazenda C.A.D.A

É a cerca de sete quilómetros do centro da vila que está a Boa Entrada, um povoado em crescimento em torno da antiga fazenda da Companhia Angolana de Agricultura (CADA). Foi no início da década de 70 que a fazenda viveu os seus melhores anos com uma grande produção de café que arrebatou prémios pelo mundo. Além do café, a CADA aglomerava dezenas de pequenas fazendas agrícolas com uma importante produção de algodão, sisal, banana e de muitos outros frutos, assim como de todo o tipo de hortícolas. A organização da grande fazenda incluía escolas, um hospital, igreja, casas de vários tipos para os funcionários e até mesmo um ramal do Caminho de Ferro de Benguela que ficou conhecido com o nome de Caminho de Ferro do Amboim. Esta linha começou a ser construída em 1914 sob iniciativa dos fazendeiros da CADA. A ligação com Porto Amboim, de pouco mais de 100 quilómetros, ficou concluída em 1931 com o propósito principal de escoar a produção de café, sisal e algodão.

A linha do caminho-de-ferro há muito que deixou de estar operacional mas ainda hoje existe, à entrada da CADA, o edifício da estação do Amboim que está ao abandono. Durante os vários anos de conflito armado, naquela zona, a CADA esteve isolada do mundo e a degradar-se. Actualmente, e depois de reabilitados alguns edifícios, estão em funcionamento o hospital e a escola principal, a igreja e vários serviços administrativos. As casas antes destinadas aos trabalhadores da antiga fazenda são agora o lar de muitas famílias que decidiram repovoar a região e retomar pequenas produções agrícolas de subsistência. Toda a vasta área da fazenda e arredores pode ser visitada.

Tome nota

Como ir

Não há ligações aéreas. A estrada é a única forma de se chegar à Gabela numa viagem de cerca de 400 quilómetros percorridos, em média, em pouco mais de 6 horas. Para chegar à Gabela, com partida de Luanda, deve seguir em direcção à Barra do Kwanza e apanhar a Estrada Nacional 100 que liga a Benguela. Cerca de 15 quilómetros antes da cidade do Sumbe, e junto ao Instituto Nacional de Petróleos, vire à esquerda e ainda mais 77 quilómetros para chegar à sede do município do Amboim.

Onde ficar:

O Hotel Gabela é a única unidade hoteleira de referência na vila, apesar de existirem pequenas pensões espalhadas pela região.

Onde comer:

Além do restaurante do Hotel Gabela há alguns restaurantes e snack-bares.

Imperdível:

Uma visita à antiga fazenda da CADA


Gabela: the wild beauty of a former queen

By Pedro Correia
Photos by Vasco Célio

This article was published in the December-January 2016 edition of Rotas & Sabores magazine, Luanda Nightlife’s media partner. Read the magazine in full here.

The journey is pleasant. From Luanda to Gabela, it’s nearly 400 kilometers, and only because the roads have known better days, the trip lasts, on average, six hours. At Porto Amboim, a little over half-way, we paused for lunch. Afterwards, we continued towards Sumbe and turned left on the detour that comes up 50 kilometers later, right after the National Petroleum Institute.

Before reaching Gabela, on kilometer 27 of the road that connects the National Petroleum Institute to the administrative seat of Amboim municipality, we enjoyed one of the greatest natural spectacles in the region, brought to us by Keve river, which, farther ahead, plunges into Binga Falls, a 150-meter drop into a sea of foam that cleaves a path in the lush greenery. Gabela is still another 50 kilometers of negotiating green hills and valleys, a striking scenery cut here and there by enormous grey boulders and massive rock piles.

On reaching the top of the imposing mountain, we spot Gabela sprawling at the gorge that parts it into parallel valleys streaked by green trees and terracotta adobe houses. In the distance, uptown, we see colonial era buildings under the aloof guard of two great grey stony hills.

Gabela was, until the 1970s, one of the most prosperous coffee regions in Angola. A long civil war and almost half a century later, we can return to the coffee plantations and maize, potato, sweet-potato, bean and peanut farms. On the road to Gabela, the aroma of fruit hung heavy in the air. Small, colorful roadside markets spring up in improvised stalls where smiling vendors outbid each other to sell the best banana, the most perfumed pineapple, the brightest orange and the prettiest apple.

Once well-supplied with fruit, we climbed the green hill of Morro do Cruzeiro, right in the center of town, to visit the ruins of the old Gabela fort (19th century), firstly; took in the view of one side of town at the hill Morro da Cruz, a former catholic worship site bearing a chapel and the Cross of Christ, secondly; and visited the hill Morro de Santo António, another catholic worship site that safe keeps the Saint also witnessing the construction of a church, lastly. Following steps carved into the rock, we climbed the hill to enjoy a unique sight, the panoramic view of new and old Gabela and its splendid surroundings. In the distance, we see the site of our next visit.

CADA Farm

It is located at about 7 kilometers away from town center in a locality called “Boa Entrada”, a settlement growing on the grounds of the former Angola Agricultural Development Company (CADA) estate. The estate experienced its best coffee production years in the early 1970s, reaping a harvest that was awarded around the world. Apart from coffee, CADA supervised dozens of smaller farms that had a significant output of cotton, flax, bananas and other produce. The estate’s management included schools, a hospital, a church, employee housing and even a railroad track connected to the Benguela Railroad, known as the Amboim Railroad. Its construction was initiated in 1914 under the initiative of the CADA landowners. The connection with Porto Amboim, a 100 kilometers away, was completed in 1931. Its main purpose was to transport the coffee, flax and cotton production.

The railroad has long since ceased to be functional but one can still be see, at the entrance of CADA, the abandoned building of the Amboim Railroad Station. During the many years of armed conflict in the area, CADA was cut off from the world and degrading. Today, following the rehabilitation of some buildings, the hospital, main school, church and several administrative services are up and running. The houses once occupied by the former estate’s employees are now the homes of many families that decided to repopulate the area and work on small subsistence farms. The entire area of the estate and vast surroundings can be visited.

Take Note

How to go

There are no flights to Gabela. The road is the only travel option, on an average 400-kilometer, six-hour trip. To reach Gabela, follow the Luanda – Barra do Kwanza – Estrada Nacional 100 route heading towards Benguela. 15 kilometers before the city of Sumbe, near the National Petroleum Institute, turn left and drive for another 77 kilometers until you reach the administrative seat of Amboim municipality.

Where to stay

Hotel Gabela is the only reference hotel in town, but there are small pensions spread around the region.

Where to eat

Other than the Hotel Gabela restaurant, there are some restaurants and snack bars.

Not to miss

A visit to the former CADA estate.

 

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