Clube Nómada em visita ao Espaço Luanda

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Por Hildérico Coutinho, escanção/sommelier e membro do Júri LNL

Levar os amigos do Clube Nómada a templos de prazer é uma missão que me cabe. Este Espaço Luanda em Talatona estava identificado faz tempo e finalmente surgiu a luz verde ansiada por parte do Rui Yen, o homem por detrás da trajetória de sucesso desta casa.

Em boa hora o fez e felizmente a adesão justificou amplamente a aposta, tendo ficado muita gente interessada de fora do evento, algo de que não gostamos mas nos apraz registar.

O Chef Kay Ellmer, o nosso anfitrião, esteve desde a primeira hora motivadíssimo para este embate e o trabalho desenvolvido na sua preparação foi absolutamente notável e o melhor que até hoje consegui por estas paragens.

O Kay, de nacionalidade alemã, tem um percurso por diversas paragens que influenciaram e muito a sua cozinha. Falo em particular da sua passagem por Portugal.

Os resultados, como poderão ver pelas notas médias obtidas, não podiam ser diferentes com valores a rondar os 4 em 5 pontos possíveis e havendo sempre alguém a dar nota máxima a todos os pratos e vinhos servidos, algo que nos deixa orgulhosos mesmo sabendo que alguns desses levaram nota mínima, que tentaremos corrigir no futuro.

Mas passemos então a descrever os 4 momentos de prazer e começamos exatamente pelo prato mais celebrado da noite, Ceviche de Corvina com Geleia de Limão e Molho Tarê, um prato de inspiração peruana com um toque japonês.

A elegância do prato com os sabores muito bem integrados e de uma delicadeza extrema deixou toda a gente rendida (4,3 Valores) e daí terem apreciado a delicadeza do espumante escolhido, Marquês de Marialva Blanc de Blancs Bruto 2013 (3,7) assim como a maridagem ou harmonização (4,0).

Este que apesar de provir de uma região que produz os mais agressivos espumantes portugueses mostra um outro lado dos vinhos espumantes desta que é para mim a zona com mais potencial em Portugal para este tipo de bebida, a Bairrada.

Seguiu-se o prato menos consensual da noite, Espetada de Gambas Panadas com Sementes de Sésamo num Consomê de Açafrão e Juliana de Legumes que ainda assim arrebatou uns simpáticos 3,9 pontos. Uma fusão entre a clássica cozinha francesa onde o açafrão representa a inovação e as gambas panadas imitando o que os japoneses imitaram e como é usual melhoraram, a tempura.

As críticas menos positivas diziam respeito a alguma secura nas gambas e noutros casos a um desfasamento entre estas e o caldinho. Eu pessoalmente apreciei o conjunto e o toque de gindungo na sopa ajudou o vinho a subir uns bons patamares. Aliás foi exatamente isto – foi ótimo perceber que houve quem percebesse isso mesmo sem eu falar – que me fez manter o vinho depois da prova. Eu estava à espera que este branco do Douro de 2013 estivesse bem mais evoluído, mas a verdade é que o Terra a Terra Reserva está ainda muito contido em termos aromáticos com apenas umas leves notas florais a mel. 3,8 pontos para o vinho e harmonização.

Seguiu-se outro prato a provocar algumas reações menos positivas, mas a maior parte delas deviam-se a algo que eu pessoalmente elogio, o ponto de cozedura da carne. Infelizmente e apesar de compreensível as pessoas aqui em Luanda estão habituadas a comer tudo muito bem passado, secando e tirando sabor à carne e ao peixe. Ultrapassar isso ainda vai demorar, mas estes eventos servem mesmo para isso, para provocar.

O vinho foi o Monte Mayor Reserva Tinto 2014 (3,5) que se mostrou poderoso e com uma acidez invulgar em vinhos alentejanos, mas como eu venho defendendo, os vinhos alentejanos estão paulatinamente a mudar. Começaram pelos topos de gama e já se torna visível nos vinhos de gama média como é este caso. Ainda assim foi identificado como sendo alentejano por mais de um cliente e um cliente identificou mesmo o vinho tendo apenas falhado no ano da colheita. Incrível!

Para amaciar o vinho foi feita uma decantação de meia hora e escolhido um prato com acidez alta por utilizar vinagre na sua confeção. O Medalhão Azedo como lhe chamámos ou Sauerbraten no original é um prato de origem alemã em que a carne é marinada em vinho tinto, vinagre açúcar e especiarias e foi acompanhada por uma espécie de panqueca, Roesti em alemão, feita de arroz, batata e sementes de linhaça, era um prato muito comum em casas mais desfavorecidas na fronteira suíço-alemã e ainda por uma couve roxa trabalhada quase como o chucrute mas com a adição da maçã e por conseguinte mais doce (4,0). A harmonização (3,7) sofreu, creio eu, por a carne ter absorvido menos a marinada que na minha primeira experiência, o que teria também evitado as reclamações pelo ponto da carne.

Acabámos com o segundo prato mais apreciado da noite, Trilogia de Chocolates à sombra de uma Telha de Caramelo beirando um Lago de Maracujá (4,2), que apontava como favorito mas que foi criticado, para surpresa minha, por alguma doçura a mais, algo que subscrevo em especial no maracujá onde uma menor doçura e consequente maior acidez teria feito uma melhor ligação ao chocolate. O vinho, um Porto L.B.V. de 2003 da Cálem, um ano de excelência mas um vinho já em queda nas notas de fruto preto permanecendo contudo algum mentolado e foi o mais apreciado da noite (4,0). A maridagem ficou-se pelos 3,8.

Em resumo, começamos lindamente a comer e acabamos lindamente a beber, tudo isso num ambiente extraordinário em que o serviço foi de grande qualidade nos tempos de saída e distribuição de comida pelas mais de 60 pessoas (notável) sem contar com a permanente atenção aos vinhos nos copos.

Estão todos de parabéns e a criar uma bela escola de hotelaria. Todos agradecemos e eu quero agradecer por último, mas não menos importante, à Angonabeiro pelo apoio prestado. Obrigado.

Hildérico Coutinho
Escanção/Sommelier

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